segunda-feira, 25 de março de 2013

O Castelo de Carcassonne


 O Castelo de Carcassonne

Um maremoto sensorial deixa-me sem controlo…
Ao atravessar uma porta flanqueada por dois torreões semicirculares, entro num cenário romântico e misterioso que me faz transportar de imediato para um sonho no tempo medieval. – “Estou sobre a arquitectura granítica irregular de muralhas coroadas por seteiras quadradas maciças com torres circulares.
“Passo por uma cantaria, ou seja, a porta de entrada. Subo por uma rocha escarpada como se fosse umas escadas… ao exterior de uma zona mais elevada, onde se ergue a uma torre de menagem. Movimento-me sobre o quadrante das suas muralhas, e deste terraço, o meu olhar de visitante perde-se a comunicar-se com uma paisagem dentro de um rio com duas margens que descem assegurando a minha passagem (…) “  
“Começo a ter na memória a frequência do envolto das brumas matinais com um denso “nevoeiro nocturno” a esconder a cruz patesca, primitiva insígnia dos Templários. Surgem algumas batidas metálicas das armaduras e das espadas, a trupe e o relinchar dos cavalos com os gritos dos soldados.”
“Diante de uma janela aberta de uma torre encontro, duas formosas damas de nobre linhagem que me olhavam como duas lápides alusivas; pareciam estar enamoradas dos meus olhos: as pupilas dilatadas não deixavam de sorrir…!”









   

Andorra


             Andorra

Quedo-me a contemplar o que penso; a viagem que testemunha e documenta uma realidade. 

Andorra, um tear de sorrisos… a residir no que era desconhecido…
Um mapa existente…!
Uma varanda do Mundo sepultada nos Pirenéus, com, um povo minúsculo e remoto e, costumes que ninguém conhecia.
Um dos pontos mais elevados e fascinante… adormecido e conservado através dos séculos.
Um recôndito distante num recanto do planeta com inéditas imagens e emoções… – onde ninguém ia ou pensava ir (…)

Os caminhos que conduzem a Andorra, começam nos nossos olhos, ao longe; nas montanhas escalavradas e austeras que fecham o horizonte; na severidade da paisagem e, nos píncaros que cobrem com chapéus de bruma.
Quedo-me a pensar no que vejo; um caminho silencioso e intransitável, a convidar-me a entrar livremente, que me faz passar por debaixo de uma edificada arbitrária coberta de ardósia. Foi como abrir-se uma passagem clandestina a retorcer-me no tempo, ou o efeito mágico da idade média em plena modernidade.
Entrei…!
Esta é a entrada que liga La Seo D’urgel em Espanha a Andorra entre uma enorme garganta com paredes antiquíssimas a pique – esquecidas entre o céu e a terra.
Não há nada, a não ser pedras enegrecidas pelo tempo: caminhos sinuosos, atalhos, veredas e habitáculos erguidos sem idade. Um cenário de velhice ao abandono com expressões de beleza…



                      
                                      ANDORRA

           Estou pasmado com uma diversidade igualável,
E com o romantismo do que vou vendo e vai-me deslumbrando…
Casas genuínas, plantas bizarras, borboletas e flores luxuriantes…
Leitos e rios que se desenham entre penhascos e recônditos trilhos,
A harmonia perfeita que a natureza fez;
E de todo o charme que de mão dada passeia comigo.

        Acordei com a fantasia…
Com os segredos defesos ao vulgo da natureza.
O céu claro, o ar tépido e bonançoso
O silencio progressivo e rápido em redor de mim
O regato dos espíritos dos poetas escrevendo:
O bafejo do vento, as remotíssimas vozes do outro mundo
Onde não se prenuncia qualquer distancia.

       Vivo no desassossego numa artéria pedonal,
Seguindo por um caminho de indultos,
Com servidão da apatia aos eucaliptais:
Espelham-se dentro da minha visão,
Com montados de sobro, rodeados de pinhais,
Vestidos de negro,
E transformados em mantos de carvão.
Vejo-os, os olhos sumarentos,
E com uma dor no coração.

         Agora resta-me ver o céu aberto,
A descrever toda a diversidade linear:
Quilómetros de estradas sinuosas,
Onde se acentua o carácter sublunar.
Terras escuras e fundeadas,
Acompanhadas pelo estrepe do ar.
Um tecto azul colado ao céu,
A viajar com o tempo contado.

   



ESTADOS UNIDOS DA AMERICA


                                     

     Fiz travessias Fascinante…
     Naveguei em longos lagos cercados de montanhas nevadas visitando diversos parques com a surpreendente variedade de fauna e de flora, onde o ruído do vento é constante e os céus são vastos e muito luminosos!
     Conheci cidades primárias, secundários e as terciárias. Os centros das cidades principais, e as de tamanho muito inferior, e os centros de todas as atenções. As arquitecturas modernas, e os centros históricos com edifícios antigos onde estavam instalados lojas, bancos e restaurantes. A partir deles, irradiam-se avenidas ao longo das quais se dispõem outros edifícios…
     A minha alma aconchegou-se com o rebuliço das ruas e das praças, com o brilho do glamour da cidade de Las Vegas Philadelphia, New Iorque e as demais…



  


Quanto às minhas viagens nem sempre foram boas. Acabei por ver o obsceno: violência, sofrimento, e gente a alimentar-se de tudo em lixeiras por este mundo fora.
Encontrei uma criança vertendo lágrimas pueris. Tomei-o pelas costas puxando-o com os meus braços metidos entre os dele. Chorava por ter-se dado por vencido, porque os seus pais tinham morrido. Senti o seu corpo leve e suave sacudido pelo susto com uns derradeiros soluços, até que sinto seu pulso de ferro a devolver-lhe as forças quando já estava cansado, voltou-se para mi com um sorriso, ainda com algumas lágrimas a caírem sobre ele




                                                Grand Canyon
                                                 (Arizona)

     Segui a mais famosa estrada americana perdida no tempo, a rota 66 que interliga o país entre locais distantes… que ficou na memória da minha vida. Levou-me ao cimo do Grand Canyon - a permanecer em terra firme explorando as profundidades ocultas da Terra
     A primeira impressão que o Grand Canyon causa o espanto, devido à grandiosidade do lugar e à sensação de um horizonte sem fim, tanto em distância como em profundidade.
     Descrevo Grand Canyon como uma falha no terreno, com formas estranhas, picos, rochedos e encostas de cores diferentes, a perspectiva que se perde ao longe numa extensão quatrocentos e quarenta quilómetros de comprimento, e quase dois mil metros de profundidade e de uma variada largura variando de duzentos metros a vinte sete quilómetros.
     O rio Colorado, o vento, a chuva e a erosão, são os grandes responsáveis pela moldagem das cordilheiras de pedra criadas por um fantástico ziguezague de corredeiras de água entre picos verticais que ao longo dos séculos se abriram pela força entre as rochas sedimentares. *
     Convivi com um homem de pele mestiça, com pouco mais de sem anos, com a alegada debilidade no corpo e muito forte de espirito.
Recordo que em 1981, que perante este ancião e das suas historias testemunhadas com toda a credibilidade por gente da sua tribo que de si descendia, que seria possivelmente um dos últimos sobreviventes das lutas do far-west. Quanto às minhas averiguações, este Sioux nasceu em 1881 – com pouca margem de erro – revendo-se a conformidade da idade de seus filhos, netos e bisnetos. Os trinetos tinham a minha idade.
*As rochas sedimentares são formadas a partir da pressão exercida sobre as partículas de sedimentos carregados e depositados pela acção do ar (vento), gelo ou água.

Tive experiências memoráveis a observar paisagens magníficas e serpenteantes do Parque Nacional de Yosemite, e o conhecimento dos segredos da história dos vestígios deixados pelos Navajos. Do  Monument Valley, tive a espantosa recordação de Grand Canyon, e a viajar com o caracter idóneo através das montanhas que previvem intactas á milhares de anos, com lagos, bosques habitados pela grande fauna norte americana: ursos, lobos, caribus, coiotes, alces, Linces e pumas  
Passei por corredores e junções entre povoações em quadrícula ou concêntricos… em subúrbios quase sempre irregulares; florestas que se localizavam em áreas densamente povoadas com vestígios preservados…

     De noite, quando me deitei no meu leito, foi como se abrisse uma mochila cheia de sonhos… a viajar pelas janelas do Mundo, sem saber se voltaria a casa, mas regressei sem nunca mais ser o mesmo.



Lisboa


     



     Presenciei lúgubres acontecimentos, profundos e dolorosos, como as do palco, com cenários e actores com o seu guarda-roupa, que nos divertem ou emocionam. Que tanto no expõem  à beleza como ao perigo de qualquer natureza:
     Em estradas por vias estreitas e poeirentas onde a circulação é difícil de dia e arriscada de noite, sem qualquer iluminação, eram lugares onde o vento cega e sufoca. Em alguns pontos, a espessura do arvoredo cerrado, em plena treva, não deixava que qualquer sombra acompanha-se quem ali caminhasse



A mendicidade recatada que não se pode confundir com a pobreza envergonhada. Gente que exerce livremente o seu ofício com a maior indiscrição, que sem cerimónia interrompem quem passa.
As casas de tavolagem mais ou menos lobregas e infectadas em pátios tenebrosos
Bandos  enxaguamos de crianças pobres, brincando e crescendo sobre o pavimento sujo das ruas e das vielas esquecidas. As camponesas caminhavam de pés e pernas nuas sem que ninguém olha-se as suas embevecidas e robustas “attachés.” Enquanto as senhoras com os seus vestidos afagados, alguns colossos de gordura apresentando as mais preciosas jóias com um colo exuberante. As mais velhas à longo tempo dóceis e submissas a passarem sob o jugo da moda sem se aperceberem da modéstia dos seus contornos e decotes, ancas a deformarem e o cabelo a cair.


Um grande número de intrusos invade e devassa as ruas, juntam um ruido vibrante, mas nem toda a gente suporta o barulho ensurdecedor. O lixo e a poeira não incómoda, porque mal se vêem, quando o vento levanta limpa o esterqueiro das ruas.


Sesimbra






Em Sesimbra andei de mãos dadas em silêncio a olhar com avidez o mar ciumento e colérico; O mar absorto pelos séculos e sem idade. Prateado e deserto, e cheio de eternidade enternecedora, com sons, vibrações e vagas intermináveis, ao quebranto do crepúsculo, em estilo brando a qualquer olhar sedento.
- Embora a verdade seja dita;
Só se ouvem as pancadas das águas
Só se sente a maresia,
A simbiose
E os perfumes delas…


O turismo parece um caos; corpos meios nus, em t-shirt em calção de banho num passadiço, corredor estreito e comprido, com encostos, apalpamentos com ou sem intenção libidinosa, por gente bem ou mal cheirosa com um vozear contínuo, com a análise visual bem perto dos meus olhos enquanto percorro o centro da confusão com vários olhares suspensos, implacáveis, sem controle nos movimentos… a devassar algum mistério, quem sabe o que vai nos seus pensamentos?…

Conheci uma mulher que tinha um olhar sacrificado. Quando passeava pelo côncavo da enseada de ponta a ponta para exercitar as pernas, o corpo rechonchudo, e o desassossegado, como seu passa tempo. Com o rosto calmo a remexer devagar. Lábios e boca a mastigar um pensamento… vai sacudindo o corpo compassivo assistindo com o olhar e, em silêncio, admirando se não deslumbrada, a paisagem do mar a dar-lhe conforto tangível desmascarado no seu semblante. e dizia:
«Fico a rolar por aqui com desejo
Sem querer voltar para casa
Nem para dentro de mim.

Almada





 Almada - Percorro com a minha nudez o litoral os primeiros efeitos instantâneos do sol invadindo o horizonte o sombrio de uma noite, sobre cujas aguas a tocarem-me calmamente.

Sentei-me sobre uma duna e sobre a sua camada mais dura e húmida e menos inclinada a ver as restantes dunas de areia cantantes com a minha curiosidade que aguça. Os grãos de areia soltos a deslizarem-se por si mesmo a vibrar como cordas arrastadas de um violino. Por isso se diz que as dunas de areia “ cantam chiam e ressoam “ pela fricção dos seus grãos.